18 de julho de 2007

Essa é demais

Estou aqui em casa lendo a última edição da Revista Época e conversando com minha querida amiga Catharina pelo msn. Li uma reportagem que me mostrou o absurdo do nosso parlamento (não que eu desconhecesse o absurdo, mas não sabia que chegaria a tanto). Copiei o texto (original aqui) e colei logo abaixo. Divirtam-se!

O apagão de neurônios

Na lista de soluções dos parlamentares da CPI do caos aéreohá idéias como criar agendas culturais nos aeroportos. Sugestão do filme: O céu pode esperar

A lista de sugestões da cpi do Apagão Aéreo para resolver o caos nos aeroportos mostra que os deputados e senadores estão seguindo à risca o conselho da ministra do Turismo, Marta Suplicy. Só pode ser gozação. Para os deputados, uma das medidas que os aeroportos devem tomar é a “promoção de agendas culturais nas salas de espera de embarque, visando melhor aproveitamento do tempo de espera”. Por que ninguém pensou nisso antes? É a salvação do teatro brasileiro. Vamos encenar peças a que os passageiros possam assistir enquanto esperam! Ou quem sabe um circo seria melhor? De repente, um mágico pode fazer aparecer um avião, e o nobre passageiro deixa de se sentir um palhaço. É ou não é piada de salão, quer dizer, de saguão?

A lista de recomendações dos parlamentares, ao contrário do que já aconteceu com sua viagem, não pára por aí. Os deputados propõem a “criação de salas especiais para acomodação de passageiros com vôos atrasados com disponibilização de água, café, telefone, internet, cadeiras confortáveis, televisão”. É praticamente um hotel. Por que viajar se você pode ter um hotel no próprio aeroporto? Só falta a cama. Poderiam fazer um home theater também. Sugestão de filme: O Céu Pode Esperar!

Como disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o caos aéreo é sinal da prosperidade do país. As pessoas estão viajando mais. E os políticos, pelo visto, estão viajando também... na maionese. Nem todas as sugestões da CPI são ruins. Há também as péssimas e as ridículas. Um terço delas fala sobre medidas paliativas, como aumento de multas, aumento de funcionários e investimento para melhorar o conforto dos passageiros nos aeroportos. Tradução: o caos não vai acabar, vamos administrar o apagão para que você pelo menos tenha mais conforto.

Outra idéia sensacional é divulgar informações sobre atrasos no site das empresas. “Hellooo!” As pessoas JÁ estão no aeroporto! Para que informar no site? O relatório prevê, ainda, que sejam instalados totens informando sobre o atraso. Vamos avançar nisso, gente! É preciso informações mais completas naqueles painéis. Em vez do habitual “atrasado”, “em terra”, “previsto” e “embarque imediato”, sejamos mais realistas. A partir de agora, os painéis deveriam exibir mensagens como “desista”, “vá de ônibus”, “esqueça” ou “tu ainda tá aí?”. É de matar. Mas ninguém vai morrer por causa disso. Os deputados sugerem que todo aeroporto tenha atendimento para cardíacos.

Existem idéias que vão pegar e ainda darão lucro aos passageiros, temos de admitir. Uma das propostas: “Os passageiros que optarem por viajar fora dos horários de pico deverão receber incentivos, por meio de descontos nos preços das passagens aéreas”. Essa sim é boa. Quem quiser pode comprar uma passagem para embarcar às 3 da manhã e pagar bem menos por ela. E qual o problema de a passagem ser para as 3 da matina? Você não vai conseguir embarcar antes das 3 da tarde mesmo. Pelo menos a gente economiza.

Outra sugestão: se sua mala extraviar, em vez de um mês, você passará a receber a indenização em no máximo uma semana. Ou seja: a grana vai chegar em boa hora, a mesma em que você estiver chegando a seu destino!

Para não ficar apenas nas críticas, é preciso reconhecer que os deputados são criativos. Solução eles não inventam, mas inventam palavras. O documento diz que é preciso acabar com o “duopólio” – monopólio duplo? – da TAM e da Gol. É barra! De cereal, claro.

Podemos construir condomínios inteiros no aeroporto. Incluindo igreja e maternidade. O casal que comprar duas passagens para viajar na lua-de-mel poderá fazer a cerimônia de casamento já no aeroporto, para garantir o lugar na fila. Como a espera tende a ser longa, o parto dos filhos pode ser feito ali mesmo. Finalmente, quando a filha completar 15 anos, ela conseguirá embarcar para a prometida viagem à Disney. Tudo isso sem precisar sequer tomar um táxi. As companhias aéreas podem inovar nas promoções e dar vantagens especiais a quem inscrever em programas de fidelidade os filhos ainda não nascidos.

E não nos esqueçamos da programação cultural. Você queria viajar para assistir aos desfiles de moda de Paris, Milão e Nova York? Para quê? Veja o incrível desfile de malas Prada e Louis Vuitton na esteira de bagagem. Quem não liga para o mundo fashion pode aproveitar os eventos esportivos. Você queria ir a uma corrida de Fórmula 1? Veja os carrinhos alinhados no grid do check-in. Queria ver as competições do Pan? Ora, já está em plena maratona.

E atenção, senhores passageiros, o apagão de neurônios da comissão continua, embora suas férias já tenham chegado ao fim antes mesmo de começar. A CPI propõe a “ampliação e diversificação de oferta de serviços, comércio e de lazer nos aeroportos”. Com tudo isso, para que viajar? Vamos fazer verdadeiros complexos turísticos dentro dos aeroportos. Assim você não vai mais precisar perder horas esperando o avião. Chega também de passar oito horas na aeronave para levar sua filha à Disney! Seus problemas acabaram! Chegou o sensacional “Disney Airport World”, o primeiro parque temático que funciona dentro de um aeroporto! Você vai se emocionar com nossos fantásticos simuladores de vôo: a gente vende a passagem e você simula que vai viajar, mas não viaja!!! Não temos o Mickey, mas espalhamos espelhos por todo o aeroporto para você ver o pateta!

Sugestões da CPI do Apagão Aéreo no Senado

1. Elevação da qualidade dos equipamentos de controle de vôo responsáveis pela aproximação, pouso e decolagem dos principais aeroportos
2. Diferenciação das tarifas aeronáuticas e aeroportuárias em função do grau de saturação de cada aeroporto e dos horários de pouso e decolagem
3. Adoção do sistema de slots nos aeroportos congestionados (adoção de um modelo eficiente de alocação de horários de pouso e decolagem nos aeroportos saturados).
4. Estímulo à participação dos Estados e Municípios e da iniciativa privada na gestão aeroportuária
5. Revisão das linhas aéreas com origem ou destino em aeroportos congestionados
6. Elaboração e implementação de uma Política Nacional de Aviação Civil e de um Plano Aeroviário Nacional
7. Fortalecimento do Ministério da Defesa
8. Arrecadação das tarifas aeroportuárias pelo COMAER
9. Separação dos sistemas civil e militar de controle do espaço aéreo quando da implantação do sistema CNS/ATM
10. Maior setorização do espaço aéreo brasileiro
11. Revisão e fortalecimento das rotinas de supervisão e assistência aos controladores de vôo
12. Revisão, modernização e reforço da manutenção dos equipamentos de rádio, radar e de software usados para o controle de vôo
13. Adequação transitória das condições de trabalho dos controladores de tráfego aéreo militares

Sugestões da CPI do Apagão Aéreo da Câmara dos Deputados

1. Instalação de guichês de informações, nas áreas de embarque dos principais aeroportos, para prestar informações sobre a situação dos vôos.
2. Divulgação, em cada site das empresas aéreas, da situação dos seus vôos com atualização, no máximo, a cada 15 minutos.
3. Indenização para os passageiros das empresas aéreas, a título de perdas e danos, por atraso - superior a duas horas - ou cancelamento de vôo, independente dos direitos que os mesmos já possuem.
4. Definição do número mínimo de funcionários de todas as empresas aéreas, Infraero e Anac para atendimento ao público e prestação de informações.
5. Criação de uma tabela de multas para serem aplicadas de maneira conjunta às empresas aéreas, à Infraero e à Anac na ocorrência de atrasos e cancelamentos, com reversão da arrecadação para a melhoria dos sistemas de comunicação das mesmas.
6. Aumento do número de guichês de informações nos aeroportos brasileiros.
7. Cuidado para que os painéis eletrônicos dos aeroportos, os sites das empresas aéreas ou de controle e o pessoal de atendimento mantenham-se com informações atualizadas.
8. Aumento do número de guichês de check-in e dos postos de controle de acesso às áreas de embarque visando evitar a formação de longas filas.
9. Instalação de um número maior de máquinas de check-in e de "tótens" eletrônicos de consulta de informações de vôos.
10. Criação de salas especiais para acomodação de passageiros com vôos atrasados com disponibilização de água, café, telefone, internet, cadeiras confortáveis, televisão.
11. Revisão do processo de check-in de viagens domésticas de curta distância com a finalidade de agilizar e simplificar o processo, por exemplo, check-in diretamente no portão de embarque.
12. Implantação de equipes de atendimento aos passageiros que desembarcam nos aeroportos brasileiros, com a finalidade de prestar serviço de apoio, informações e de divulgação turística.
13. Promoção de agendas culturais nas salas de espera de embarque, visando melhor aproveitamento do tempo de espera.
14 . Criação de um "data center" que centralize as informações dos centros de controle de vôo da Aeronáutica, da Infraero e das empresas aéreas e de uma rede que permita que todos esses órgãos acessem a mesma base de dados, a fim de garantir a precisão e unicidade das informações.
15. Ampliação e diversificação de oferta de serviços, de comércio e de lazer nos aeroportos.
16. Criação de uma norma para as empresas aéreas que regule a prática do "overbooking".
17. Implantação da Acessibilidade Universal no Sistema de Transporte Aéreo: eliminação das barreiras arquitetônicas nos aeroportos (no entorno e no seu interior), eliminação das barreiras físicas nas aeronaves, implantação de guichês de informações para pessoas com deficiências visuais e auditivas, treinamento de pessoal de solo e das tripulações para atendimento a esse público.
18. Intervenção do Governo Federal, do Congresso Nacional e da Anac na organização do setor: impedir o "duopólio" das maiores companhias aéreas brasileiras (TAM e Gol).
19. Os passageiros que optarem por viajar fora dos horários de pico devem receber incentivos, por meio de descontos atrativos nos preços das passagens aéreas.
20. Definição das condições mínimas de conforto nas aeronaves em relação ao número máximo de assentos e passageiros, bem como um número máximo de horas de vôo para uma aeronave a fim de que ocorram menos conexões, diminuindo as possibilidades de atrasos.
21. No caso de atrasos acima de quatro horas, as empresas aéreas deverão assegurar aos passageiros, além de alimentação, transporte e hospedagem, direito à assistência médica, bem como medicação para diabéticos e cardíacos.
22. Redução do tempo do pagamento da indenização por extravio de bagagens de 30 dias (prazo atual) para, no máximo, uma semana.
23. Criação de um sistema de sondagens/sugestões por parte das empresas aéreas, a ser aplicado junto a seus passageiros e funcionários, visando melhorar a qualidade dos serviços prestados.


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