18 de julho de 2007

Que surpresa...

Pois é, parece-me que a Revista Época está crescendo intelectualmente, hehehe (na minha modesta visão, é claro). Finalmente colocaram um artigo até interessante sobre Schumpeter, grande economista do séc. XX com passagens pela área da Ciência Política. Copiei e colei o artigo logo abaixo (original aqui).

O profeta da inovação

“O empreendedor não é movido só pelo desejo de ficar rico, mas pelo sonho e pelo desejo de fundar um reino privado”

No momento em que o crescimento econômico passou a ser a questão central da agenda do país, um livro lançado recentemente nos Estados Unidos, ainda sem tradução em português, bem que poderia ser uma fonte permanente de inspiração para as autoridades brasileiras nas três esferas de governo – federal, estadual e municipal. Trata-se de The Prophet of Innovation (O Profeta da Inovação), uma excelente biografia de Joseph Schumpeter (1883-1950), um dos economistas mais brilhantes de todos os tempos e, provavelmente, aquele que melhor compreendeu o funcionamento do capitalismo.

Não por acaso, o economista John Kenneth Gailbraith (1908-2006) o considerava “o mais sofisticado conservador do século XX”. Em 1983, no centenário de nascimento de Schumpeter e de seu contemporâneo, o economista John Maynard Keynes (1883-1946), que defendia a ação governamental para estimular o crescimento, a revista americana Forbes considerou Schumpeter um guia mais adequado que seu rival britânico para navegar nas águas turbulentas da economia mundial. Ainda hoje, com a globalização, as idéias de Schumpeter para promover o desenvolvimento, com foco na inovação, no empreendedorismo, no crédito e no mercado de capitais, parecem mais atuais que nunca.

O novo livro foi escrito pelo professor Thomas McCraw, responsável pela cadeira de História Empresarial na Universidade Harvard e ganhador do Prêmio Pulitzer, o mais tradicional dos Estados Unidos nas áreas jornalística e literária. McCraw não conta só a vida de Schumpeter. Traça um belo retrato sobre o tempo em que ele viveu, marcado por duas guerras mundiais, e discute com serenidade suas idéias. É o ato de jogar os holofotes sobre o pensamento de Schumpeter, 57 anos depois de sua morte, que engrandece a obra.

De acordo com McCraw, Schumpeter representou, para o capitalismo, aquilo que Freud foi para a psicologia. Ele conseguiu virar do avesso as idéias do filósofo Karl Marx (1818-1883). Em vez de pintar o capitalismo como um sistema maldito, que garante o sustento de um pequeno número de parasitas à custa do suor dos trabalhadores, como Marx, Schumpeter mostrou-o como um regime benéfico para o desenvolvimento e a prosperidade das nações. Segundo o autor, Marx pode até ter cunhado o termo “capitalismo”. Mas foi Schumpeter quem lhe deu significado, com sua teoria da “destruição criadora”. Ela diz que os processos e produtos inovadores tomam de forma contínua o lugar dos que envelheceram. Foi Schumpeter também quem primeiro procurou mesclar o estudo da psicologia, da sociologia e da História com a economia. “A destruição criadora é a essência do capitalismo”, dizia Schumpeter. “Estabilizar o capitalismo é uma contradição.”

Nascido numa próspera família católica que vivia na pequena cidade de Triech, na atual República Tcheca, então parte do Império Austro-Húngaro, Schumpeter perdeu o pai com apenas 4 anos. Na época, sua mãe mudou-se para Graz, a 140 quilômetros de Viena, na Áustria, onde poderia oferecer uma vida mais promissora ao único filho. Pouco depois, ela conheceu um militar aposentado com influência na corte imperial e se casou com ele. Em 1893, mudou-se para Viena com o marido e o filho. Foi lá que Schumpeter fez o curso de Direito e travou os primeiros contatos com a economia, numa época em que nem havia a cadeira nas principais universidades do mundo. Considerado uma cabeça privilegiada desde os tempos do colégio, Schumpeter escreveu seu primeiro grande livro, Teoria do Desenvolvimento Econômico, aos 26 anos. Nele, discorre sobre o papel dos empreendedores, que buscam obsessivamente a inovação, na promoção do crescimento econômico. Posteriormente, explorou em maior profundidade as mesmas idéias em seus livros Business Cycles (1939) e Capitalismo, Socialismo e Democracia (1942), o mais conhecido de todos. “O empreendedor não é movido só pelo desejo de ficar rico, mas pelo sonho e pelo desejo de fundar um reino privado”, afirmava Schumpeter. “Aí, há o desejo de lutar, de se provar melhor que os outros, para conseguir o sucesso não pelos frutos que ele proporciona, mas pelo sucesso em si. E, finalmente, há a satisfação de criar, de fazer acontecer.”

O NOME DAS COISAS
Schumpeter não criou o termo “capitalismo”. Mas foi ele, segundo o autor do livro, quem lhe deu significado

Logo após a Primeira Guerra Mundial, quando o Império Austro-Húngaro se desintegrou, Schumpeter assumiu o cargo de ministro da Economia da Áustria, durante o primeiro governo republicano, comandado pelos socialistas. A experiência durou pouco. Ao deixar o governo, Schumpeter ensaiou alguns passos como banqueiro. Com o crash da Bolsa de Nova York em 1929, perdeu tudo e acumulou uma dívida que levou cerca de dez anos para pagar. Com o tombo, decidiu retomar a carreira acadêmica, interrompida durante suas incursões na política. Foi professor da Universidade de Bonn, na Alemanha, no período de ascensão do nazismo. Em 1932, aceitou um convite para lecionar em Harvard e imigrou para os Estados Unidos. Ensinou em Harvard até a morte.

Ao contrário de muitos economistas cujas vidas costumam ser tão movimentadas quanto a transmissão de um jogo de xadrez pela TV, a vida de Schumpeter nada tinha de monótona. Aos 50 anos, ele já tinha morado em cinco países. Sentia-se como um aristocrata, apesar das origens burguesas, e gastava dinheiro despreocupadamente. Mulherengo, gostava de contar aos amigos histórias sobre as “orgias” de que teria participado e as “avançadas técnicas sexuais” aprendidas em seus inúmeros relacionamentos.

Schumpeter casou-se três vezes. A primeira, depois de se formar, aos 25 anos, com uma inglesa bem-nascida, 11 anos mais velha. Depois, antes mesmo de se separar oficialmente da primeira mulher, a quem não via havia nove anos, casou-se com a filha do zelador do prédio em que morou com a mãe em Viena. Sua segunda mulher morreu no parto de seu primeiro filho, também morto em seguida. Schumpeter teve uma relação afetiva com a irmã de sua segunda mulher e, apesar da insistência dela, não quis se casar. Em 1937, já nos Estados Unidos, casou-se novamente, com uma economista 15 anos mais jovem, com quem viveu até morrer. Recentemente, numa resenha sobre o livro de McCraw, a vetusta revista inglesa The Economist reclamou de o autor não ter se aprofundado mais na movimentada vida sexual de Schumpeter, citada de passagem no livro. Sobre a incomparável obra do teórico do capitalismo, porém, a biografia nada deixa a desejar.


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