7 de agosto de 2007

Retórica dos vizinhos pode ameaçar liderança brasileira do Mercosul

(Original aqui)

O presidente venezuelano Hugo Chávez foi nesta segunda (6/8) para Buenos Aires com uma mala cheia de dinheiro. US$ 1 bilhão, para ser exato. Na volta para Caracas, Chávez trará papéis argentinos no lugar dos dólares. A Argentina é um dos países mais atingidos pela recente volatilidade dos mercados internacionais, que demonstram pouco apetite por risco, e precisa começar a pagar cerca de US$ 2,5 bilhões em títulos que emitiu lá atrás – na renegociação com as vítimas do monumental calote do começo da década.

Até agora a compra de papéis argentinos pelo endinheirado presidente venezuelano tem sido um grande negócio para a Argentina e, ao que comentam jornais respeitados, como o Financial Times, para alguns bons amigos de Chávez também. É que os papéis são oferecidos no mercado interno venezuelano, a bancos escolhidos, ao preço do dólar oficial (a Venezuela tem câmbio fixo) – e imediatamente revendidos no mercado secundário internacional pelo dólar de mercado. O ganho nessa operação financeira é de uns 90%, para os amigos do presidente.

Há outra vantagem ainda, do ponto de vista de Chávez: quando compram dólares e desembolsam bolivares, os bancos ajudam um pouquinho a enxugar a liquidez e reduzir a inflação (que apesar de tudo ainda está em torno de 18% ao ano). O “Financial Times” duvida que a conta possa fechar no longo prazo, em termos de controle de inflação – mas o que importa para Chávez é o cálculo político, e não o econômico.

Desde 2005 a Venezuela já comprou US$ 4 bilhões em títulos argentinos, o que seguramente salvou Nestor Kirchner de bater à porta de banqueiros ou instituições multilaterais. Chávez usa as reservas internacionais que juntou vendendo petróleo com um cálculo político: apesar das dificuldades que enfrenta dentro do Mercosul, o presidente venezuelano continua falando em “unidade” com seus vizinhos ao Sul.

Se depender de Kirchner, será uma unidade no papel e na retórica, livre de maiores compromissos a não ser discursos solenes e declarações inócuas de princípios. Kirchner acaba de convidar o México para fazer parte também do Mercosul – o presidente argentino fez a proposta exatamente uma semana antes do seu colega brasileiro visitar o México (a parte oficial da visita de Lula começou nesta segunda (6/8)). Como o México faz parte de outros acordos abrangentes com o vizinho ao Norte, é difícil imaginar como tudo isto poderia se harmonizar no Mercosul (e ainda nem se coloca na conta ainda o que Chávez acha que o Mercosul deveria ser).

Mas Kirchner saiu do México com tapinhas nas costas e a declaração, feita pelo presidente Calderón, de que a Argentina tem a “liderança do Mercosul”. Curiosa essa declaração dos mexicanos, que são bons diplomatas. México e Brasil são as maiores economias latino-americanas (juntos, detém 2/3 do PIB dessa região). Já que não compra papéis dos países vizinhos, nem anda fazendo convites para ingresso no clube, Lula precisa ver o que anda acontecendo com nossa liderança.


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