12 de abril de 2007

Centésimo post

Meus caros leitores, este é meu centésimo post. Poderia tê-lo feito anteriormente, mas esperei até hoje, 12 de abril, para que o post pudesse ser sobre algo especial. E este algo especial aconteceu neste mesmo dia, 12 de abril, mas há 46 anos atrás: à época, em 1961, Iuri Gagarin tornava-se o primeiro ser humano a literalmente "ir para o espaço".


Monumento de 40 metros de altura feito de titânio em homenagem a Iuri Gagarin em Moscou, Rússia (eu vi o monumento com meus próprios olhos :P).

Desnecessário falar sobre o acontecimento: a história qualquer um pode pegar na internet, e eu mesmo copiei e colei uma notícia do G1 logo abaixo. Mas o importante é destacar o fato de que este vôo foi um dos fatores que "produziu" o mundo durante, pelo menos, 30 anos: foi apenas após o vôo de Gagarin que a URSS e os EUA passaram a lutar sua Guerra Fria também no espaço, com todas as conseqüências que tal fato trouxe a toda a humanidade.

Russos lembram 46 anos do vôo de Gagarin
Em 12 de abril de 1961, Yuri Gagarin se tornou primeiro homem no espaço.
Diversas comemorações estão programadas na Rússia.

A Rússia lembra nesta quinta-feira (12) o 46º aniversário do primeiro vôo de um homem ao espaço, feito pelo major soviético Yuri Gagarin, na data que é celebrada como o Dia da Cosmonáutica.

Durante os atos oficiais, delegações do Governo e do Parlamento depositaram flores nos túmulos de Gagarin e Serguei Koroliov, considerado o pai da cosmonáutica, no Panteão de figuras ilustres nas muralhas do Kremlin, na Praça Vermelha.

A imprensa russa publicou diversas notas sobre Gagarin e o jornal "Izvestia" reproduziu, em um suplemento, a edição vespertina especial de 12 de abril de 1961, dedicada ao primeiro vôo do homem ao espaço.

"Em 12 de abril de 1961, a União Soviética pôs na órbita terrestre a primeira nave-satélite 'Vostok' com uma pessoa a bordo", dizia o comunicado da agência oficial "Tass", que há quase meio século foi lido por milhões de soviéticos.

Pelo mesmo comunicado, o mundo soube que o foguete que impulsionou a "Vostok" foi lançado às 9h07 (hora de Moscou), de um polígono militar secreto na república soviética do Cazaquistão, hoje um Estado independente.

Outros comunicados da "Tass" informaram que Gagarin, a bordo da "Vostok", disse que estava bem quando sobrevoou a América do Sul e a África. A "Vostok" realizou uma volta elíptica em torno da Terra com a distância máxima de 302 e mínima de 175 quilômetros.

"Da altura cósmica a Terra é vista com nitidez, se distinguem claramente as montanhas, as costas e as ilhas", escreveu Gagarin no relatório oficial sobre o vôo. O retorno à Terra representou um grande risco: a "Vostok" não tinha recursos técnicos para pousar na Terra, e Gagarin, a 7 mil metros de altura, teve que abandonar a nave em queda livre, com a ajuda do assento ejetável, e aterrissar com o pára-quedas.

Felizmente, o pára-quedas de Gagarin pousou em uma fazenda na região de Saratov, a quase 400 quilômetros de distância do lugar onde as brigadas de resgate o esperavam. Os moradores da localidade pensaram no início que se tratava de um espião americano.

Para a humanidade, a proeza do soviético marcou o começo de uma nova era e, para a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e os Estados Unidos, significou o início da corrida espacial para conquistar o cosmos.

Desde o início da exploração do espaço, centenas de cosmonautas e astronautas de vários países viajaram à órbita terrestre, onde atualmente opera a Estação Espacial Internacional (ISS), habitada permanentemente por profissionais e em algumas ocasiões por turistas.

O milionário americano Charles Simonyi, que atualmente está na ISS, celebrará a façanha de Gagarin em companhia de russos e americanos. Segundo o Centro de Controle de Vôos Espaciais (CCVE) da Rússia, Simonyi, os russos Mikhail Tyurin, Fiodor Yurchijin e Oleg Kotov, e os americanos Michael López-Alegria e Sunita Williams celebrarão a data com um jantar.


10 de abril de 2007

Fim da reeleição e mandato presidencial de 5 anos

(Original aqui)

A discussão sobre o mandato de cinco anos para presidente da República e governadores ganha força no Congresso. Agora, une uma parcela da oposição, mais precisamente do PSDB ligado a José Serra, e também uma ala do PT - a começar pelo presidente Lula, que já falou nisso algumas vezes.

Existe até uma proposta de emenda constitucional em tramitação na Câmara estabelecendo o mandato de cinco anos para presidente e governadores. Ela é de autoria do deputado Jutahy Magalhães (PSDB-BA). E, no último fim de semana, ele conversou sobre o assunto com o governador da Bahia, Jaques Wagner, um importante interlocutor do presidente Lula e também nome citado entre petistas para disputar a sucessão de Lula.

Os dois grupos falam em mandato de cinco anos, sem reeleição. Mas a oposição se preocupa com a possibilidade de esta mudança abrir uma brecha para o presidente Lula disputar um terceiro mandato - idéia que ele próprio diz rechaçar e petistas como Tarso Genro e o próprio Wagner garantem não passar pela cabeça do comando do PT.

O que une parcela do PSDB e este grupo do PT é o projeto político de cada um. O PSDB tem dois candidatos - José Serra e Aécio Neves - e poderia, assim, fazer um acerto entre os dois para que 2010 o partido tenha um candidato e 2015 o outro. E o PT se interessa pelo assunto porque avalia que Lula poderia ser novamente candidato em 2015.

Para ganhar o apoio dos atuais governadores, a proposta de emenda constitucional estabeleceria que os eleitos em 2010 teriam mandato de cinco anos. Desta forma, governadores eleitos agora pela primeira vez poderia disputar a reeleição para um mandato de cinco anos. E os vencedores cumpririam, então, nove anos de mandato em seus Estados.


Weber e o estado moderno

Após dois posts que estão diretamente relacionados com um assunto principal (a ausência de um estado no Iraque atual), coloco aqui aquele que considero um dos principais pensadores sobre o estado: Max Weber. O texto abaixo não tem a pretensão de buscar soluções para os problemas; apenas mostra o que é o estado e, em que sentido, os dois posts abaixo se relacionam.

Max Weber propõe-se a discutir sobre a vocação para a política através do estado. Este estado é definido através do seu meio de existência, que é a coação física. Caso a violência não estivesse presente, não existiria também o estado. O estado, portanto, é a única fonte do “direito” à violência. A política será então o conjunto de esforços visando à participação do poder ou à influência na divisão desse poder, seja entre estados, seja no interior de um único estado. Surge daí sua famosa definição: "o estado é um grupo político que reivindicou para si e obteve o monopólio legítimo do uso da força física dentro de determinado território".

Contudo, apesar de o estado basear-se na violência, ele é, antes de tudo, uma relação de dominação de um homem sobre outro homem. Esta dominação é legitimada através de três idéias puras: a primeira é a que diz que um homem admite ser dominado por outro devido à tradição e aos costumes; a segunda baseia-se no carisma do dominador, ou seja, em características especiais como devoção e confiança nesta pessoa; por fim, a terceira idéia de legitimidade é fundada na idéia de crença na validez de um estatuto legal (uma eleição, por exemplo).

A dominação, seja ela tradicionalista, carismática ou legalista, depende de um estado-maior administrativo – que irá garantir que as atividades desenvolvidas pelos dominados estejam de acordo com a vontade do dominador – e também dos meios materiais de gestão. Este estado-maior administrativo, todavia, não irá obedecer ao chefe apenas pelas questões de legitimidade acima citadas. Antes de tudo, interesses pessoais influenciam esta dominação: retribuição material e prestígio social. Desta forma, o salário e a dignidade dos servidores são bons exemplos para os dois tipos de recompensa esperada, e o temor de perder estas recompensas é o que liga o estado-maior administrativo aos detentores do poder.

O estado-maior administrativo divide-se em duas categorias: na primeira, o próprio estado-maior é possuidor dos instrumentos de gestão, ou seja, possuem edifícios, recursos financeiros, material de guerra. A segunda é exatamente o oposto: o estado-maior é privado dos meios de gestão. Por isto, sempre é importante determinar se o detentor do poder dirige e organiza a administração ou se a administração está nas mãos de pessoas economicamente independentes do poder.

Chama-se de agrupamento organizado “segundo o princípio das ordens” o agrupamento político nos quais os meios materiais de gestão são, total ou parcialmente, propriedade do estado-maior administrativo. Isto implica dizer que o soberano exerce seu poder através da dependência dos súditos e do uso da coação exercida pelo exército que ele comanda. Por isto, nota-se que o estado moderno conseguiu privar os funcionários e trabalhadores de quaisquer meios de gestão. Isto significa dizer que o estado é um agrupamento de dominação de caráter institucional que monopoliza, no seu território, o uso legítimo da violência física como instrumento de domínio e que reúne, nas mãos do seu dirigente, os meios materiais de gestão.


A ausência do Estado gera mais violência que a guerra

(Original aqui)

O eclipse do Estado é pior que a guerra. Sua inexistência deixa orfã a sociedade que não consegue subsistir sem regras e poderes adequados pra fazer valer a lei.

O esfacelamento de valores e das estruturas públicas permite a propagação de grupos e milícias que impõem à população a sua vontade unilateral.

A falência do Estado nessas circunstâncias gera desdobramentos muito mais sérios do que a incapacidade de assegurar o fornecimento de energia elétrica ou ampliar a expansão do emprego.

Ali onde inexiste a presença do Estado, a população vive jogada nas garras de um pesadelo hobesiano.

Essa é a advertência feito pelo professor de política internacional da Universidade de Londres, Toby Dodge, em artigo publicado domingo na Folha - "Morte do Estado impulsiona violência sem fim no Iraque" (só para assinantes), onde analisa o caos vivido hoje no Iraque depois da invasão norte-americana.

O problema maior, diz Dodge, não é nem a guerra, mas a ausência de regras.

Os EUA não apenas derrubaram Saddan mas esfacelaram o Estado iraquiano, inclusive suas estruturas físicas, arquivos, memória, comunicações, entregando a população a uma espécie de ano zero da civilização. O pesadelo de conflitos entre facções e bandos criminosos que germina nesse vale-tudo, gera uma espiral insandecida de violência e insegurança. É nesse ambiente infeccionado de autoritarismo e medo que germinam as milícias e bancos armados fazendo justiça com as próprias mãos.

A advertência do professor Toby Dodge remete a um caso extremo, mas é impossível ler trechos do seu artigo sem pensar nas periferias conflagradas das nossas metrópoles.
Vale refletir, por exemplo:


1. O reconhecimento de que a situação é precária, e está piorando, oculta desacordos e confusão quanto às causas subjacentes da (violência) que agora domina (...)

2. A capacidade administrativa do Estado já havia sido solapada por mais de uma década (entrou em colapso)

3. Os saqueadores começaram levando itens portáteis e valiosos, como computadores, e depois carregaram a mobília, e até pedaços dos prédios (...) os saqueadores estavam sistematicamente removendo os cabos elétricos ... para vendê-los como refugo.

4. . Diante desse pano de fundo ( situação de falência do Estado) a instabilidade é propelida por dois problemas interligados, que causaram a profunda insegurança e violência que agora dominam o país (...) um agudo vácuo de segurança, que foi aproveitado por grupos dispostos a usar a violência em benefício próprio. O crime organizado se tornou uma fonte dominante de insegurança.

5. O colapso do Estado, e o vácuo de segurança resultante (...) propeliram diferentes conjuntos de forças que usam a violência para seus próprios fins. O primeiro deles envolve quadrilhas criminosas de poderio industrial, as quais aterrorizam (...) a classe média...

6. Muito mais séria do que a incapacidade do governo para elevar a produção de eletricidade ou estimular o emprego, a capacidade que as quadrilhas criminosas continuam a exibir indica a falência do Estado.

7. O domínio das milícias não foi um resultado inevitável (...) mas uma resposta ao colapso do Estado: ...é preciso um governo capaz de exercer monopólio sobre os poderes de coerção, e dotado de capacidade administrativa que lhe confira legitimidade.

8. Diante do colapso da estrutura de Estado, a capacidade da sociedade de influenciar os acontecimentos de maneira positiva desaparece ...

9. O governo teria de reconstituir sua capacidade de administração e de segurança, e estabelecer o domínio da lei.

10. A incapacidade ( ...) para reconstruir essas instituições é o ponto focal do problema. Até que a capacidade do Estado seja reconstruída de maneira significativa, (...)continuará a (...) instabilidade violenta, e a população continuará nas garras de um pesadelo hobbesiano. Suas vidas serão desagradáveis..."


Irã deveria erguer monumento a George W. Bush

Por William Waack (Âncora do "Jornal da Globo" e do "Globo News Painel", foi correspondente internacional por 21 anos)

No quarto aniversário da derrubada da estátua de Saddam Hussein nesta segunda (9) em Bagdá, quem deveria erguer um monumento é o Irã: a George W. Bush. Americanos e iraquianos não comemoraram a efeméride. Cada vez menos americanos apóiam a guerra e cada vez mais iraquianos protestam contra os americanos. Na região, só o Irã está mais poderoso, mais confiante e mais disposto a exercer sua crescente auto-confiança.

Talvez seja apenas coincidência o fato do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ter escolhido o quarto aniversário da queda de Saddam para anunciar que seu país teria chegado ao estágio de produção industrial de urânio enriquecido. Conhecendo-se a ânsia com que Ahmadinejad procura holofotes, é melhor duvidar de uma coincidência. É bom duvidar também que a tal capacidade industrial de enriquecimento de urânio tenha sido atingida, mas essa é outra história.

No Iraque, a queda de Saddam foi lembrada com a maior manifestação organizada contra os americanos desde a invasão, há quatro anos. Milhares de pessoas tomaram as ruas de Najaf - o principal centro religioso, em volta da tumba do Imam Ali e do cemitério à sua sombra - para protestar contra os Estados Unidos. A manifestação foi convocada e dirigida pela imensa organização política e militar comandada por um clérigo radical xiita, Moktada al Sadr.

Ele é um pesadelo para os americanos. O nome de seu pai, um respeitado aiatolá assassinado a mando de Saddam, batizou o principal bairro xiita de Bagdá, Sadr City, uma gigantesca favela com 2 milhões de habitantes. Quem toma conta de Sadr City é o Exército Mahdi, uma milícia que já enfrentou tropas americanas em pelo menos duas ocasiões anteriores - em uma delas, em Najaf, em 2004, em confronto que só terminou com a intervenção do velho aiatolá al Sistani, que nasceu no Irã.

Sadr é um jovem ambicioso. Detém uma bancada importante no Parlamento iraquiano. Seu apoio político (e, comenta-se, também militar) é essencial para o primeiro ministro iraquiano, um político xiita que os americanos já acusaram várias vezes de tolerar esquadrões da morte que operam contra sunitas iraquianos. Há versões bastante controvertidas sobre a verdadeira autoridade de Sadr sobre as milícias Mahdi, sobre suas verdadeiras ligações com o Irã (neste momento ele estaria escondido por lá), sobre seus planos políticos (instaurar uma república islâmica depois de expulsar americanos e liquidar sunitas e curdos).

O que parece razoavelmente seguro de se afirmar, no quarto aniversário da queda de Saddam, é que os americanos estão tão longe de "estabilizar" o país quanto de determinar qualquer futuro político para o Iraque. Os combates nos quais milicianos do exército Mahdi se envolvem nestes dias ao Sul de Bagdá envolvem tropas curdas trazidas do Norte para ajudar os americanos a "acalmar" a capital - a derradeira jogada de Bush para tentar criar uma janela que ganhe tempo e permita a retirada das tropas ainda antes das próximas eleições.

Mais ainda: o episódio da captura dos 15 militares britânicos por iranianos, em águas do Golfo Pérsico, deu nova evidência ao envolvimento do Irã na guerra do Iraque. É difícil negar a interferência iraniana: quase não há controles na longa fronteira entre os dois países, mas é errado acreditar na versão simplista americana de que insurgentes iraquianos são financiados, armados e dirigidos por iranianos.

Na verdade, iranianos e iraquianos há séculos mantém um contato bastante estreito, baseado principalmente no fato de que todo xiita, se pudesse realizar o desejo, gostaria de ser enterrado à sombra do Imam Ali em Najaf. É comum encontrar iranianos rezando em Najaf e iraquianos rezando em Khom, a grande capital "teológica" dos xiitas no Irã. A interrupção desses contatos deflagrada por um Saddam foi apenas breve, em termos históricos.

Faltou aos americanos a compreensão do significado mais abrangente de religião e laços culturais para entender o que acontece naquele pedaço do Iraque - e que permitiu que árabes e iranianos, tradicionais adversários, pudessem estabelecer laços duradouros. A curto prazo - prazo de quatro anos - o principal erro americano foi a dupla dissolução do Exército iraquiano e do Partido Baath, dois dos principais fundamentos do Estado iraquiano.

Quatro anos depois da derrubada da estátua do ditador, o Iraque é um prato cheio para quem estuda instituições políticas e o papel do Estado na formação de nações. Com o perdão do cinismo, particularmente diante do banho de sangue (que mal começou), historiadores, sociólogos e cientistas políticos também deveriam erguer um monumento a George W. Bush. É difícil encontrar na História outros "experimentos" recentes nos quais tudo o que se previu que daria errado, aconteceu.

E em tão pouco tempo.


8 de abril de 2007

Kant e a fusão do "ser" com o "dever ser"

Dando seqüência a uma série de escritos sobre o "ser" e o "dever ser", coloco abaixo considerações sobre um dos principais conceitos de Kant: o do imperativo categórico, que relaciona questões de moral individual com questões do agir prático cotidiano e coletivo.

A norma moral tem a forma de um imperativo categórico. O comando nela contido assinala a relação entre um dever ser que a razão define objetivamente. O comando moral é categórico porque as ações a ele conformes são objetivamente necessárias, independentemente da sua finalidade material ou substantiva particular. A necessidade objetiva do comando categórico faz referência a que o dever moral vale para todos os homens enquanto seres racionais; o móbil, ou princípio subjetivo da ação, que pode variar segundo a situação ou o indivíduo, não determina o valor moral da ação.

O critério para a definição da boa conduta moral é formal: a moralidade da ação consiste precisamente na sua universalidade segundo a razão. Assim, o imperativo categórico é definido: “Aja sempre em conformidade com o princípio subjetivo, tal que, para você, ele deva transformar-se ao mesmo tempo em lei universal”. Os motivos materiais de nossas ações serão, pois, aceitos ou rejeitados segundo possamos ou não desejar que se constituam em leis internamente vinculantes.

Essa forma é algo que existe a priori da razão, e não resultado da observação empírica. Conseqüentemente, as normas morais que nos conduzem são elaboradas por nós mesmos enquanto seres racionais. Se criamos nossas próprias leis, somos livres, e só a conduta racionalmente fundada é compatível com a dignidade humana.

A observação empírica, e portanto arbitrária, do que seja bom ou mau para os homens, leva a uma situação em que aqueles que têm o poder de impor tal definição oprimem os que dela discordam. Conseqüentemente, a definição de “bom” e “mau” dependerá dos valores adotados por aqueles que fazem tal definição, o que inibe ou impede a liberdade individual.


6 de abril de 2007

Site para downloads de livros

Sugiro àqueles que têm interesse, que visitem o site http://www.culturabrasil.org/download.htm. Neste endereço é possível fazer download de diversos livros, de diversas áreas.

Platão e Maquiavel

Há um tempo atrás, uma amiga minha, em momento de inspiração filosófica, deparou-se com diversos pensamentos sobre a questão do "ser" e do "dever ser", característica da antiga filosofia grega. Em outro momento, ela avançou um pouco na História e escreveu sobre Maquiavel. Eu, "bonzinho" como sou, escrevi no blog dela que a solução era fácil: bastava unir Platão com Maquiavel que todos seríamos felizes para sempre. Tal idéia, ao que me parece, deu um nó na cabeça dela, e eu fiquei devendo uma resposta. Pois aqui está a resposta.

Em primeiro lugar, devemos falar um pouco de Platão. Ele foi o criador do chamado método idealista (que, a partir do séc. XVI, passou a ser chamado de racionalista). Neste método, o filosofo raciocina sobre o que seria ideal para o mundo em que vive e, a partir deste ideal racionalmente criado, analisa o seu mundo. Se opõe ao método empirista, criado posteriormente por Aristóteles. Com base no idealismo, Platão faz uma distinção que é a base de toda a sua teoria: a diferença entre o mundo ideal (MI) e o mundo material (MM). O mundo material é, por definição, imperfeito. Corresponde ao mundo físico no qual vivemos. Este mundo é imperfeito porque tudo nele é criado pelo ser humano, que é imperfeito. Já o mundo ideal (MI) é perfeito: nele está o que Platão chama de “entidades”, que é a representação perfeita de tudo que existe no MM. O MI é perfeito porque ele é criado com base na razão, e a razão humana sempre está correta.

Por sua vez, Maquiavel é considerado o primeiro filósofo político moderno por se focar no que realmente existe, e não no que deveria existir. A preocupação central de Maquiavel em todas as suas obras é o estado, o estado real que de fato existe e é capaz de impor a ordem, não o Eetado idealizado que na verdade nunca existiu. O pensamento de Maquiavel vai de encontro com o idealismo de Platão, Aristóteles e Santo Tomás de Aquino e, por outro lado, caminha ao lado da concepção dos historiadores antigos como Tácito, Tucídides e outros. Seu fundamento central é a realidade concreta, a verdade efetiva das coisas. Sua regra metodológica consiste em examinar a realidade da forma que ela é e não da forma como gostaria que ela fosse, sua problemática central na análise política é o descobrimento da forma como poderia ser resolvido o inevitável ciclo de estabilidade e caos. Maquiavel garante que a ordem na política não é natural e sim deve ser construída pelo homem a fim de eliminar o caos.

Ora, se ambos autores são conceitualmente distintos, como é possível uni-los? Pego aqui a frase que minha amiga citou em seu blog: "Não é a intenção que valida um ato, mas sim o seu resultado". Ora, como minha amiga muito bem escreveu, sem dúvida alguma que as pessoas não avaliam a intenção de quem faz algo, mas sim o resultado (e eu sei muito bem do que estou falando: as pessoas geralmente analisam apenas meus atos, mas não as intenções dos mesmos). Neste sentido, a união de Platão com Maquiavel se faz justamente nesta frase: se conseguíssemos fazer com que nossas boas intenções (idéia associada ao mundo ideal de Platão) fossem postas em prática da maneira exata como pensamos, não precisaríamos nos preocupar com o "dever ser"; bastaria apenas "sermos", sem preocupação alguma com o que outros diriam/fariam, e o resultado de nossas ações estaria em conformidade com o que sabemos ser correto (idéias platônicas e kantianas ao mesmo tempo).

No entanto, não sou nenhum ingênuo. Sei que isto é pura filosofia, já que na prática não é bem assim -- que o diga a corretíssima separação entre "ética da convicção" e "ética da responsabilidade", que teve suas origens em Maquiavel mas foi academicamente desenvolvida por Weber no início do século passado. Mesmo assim, ainda acredito ser possível unir Platão e Maquiavel: tomemos as idéias do mundo ideal, perfeito, de Platão, e as coloquemos em prática usando os métodos de Maquiavel: o parecer ser. Talvez isto não seja eticamente correto de se dizer, mas é a realidade. Na minha visão, o indivíduo deve ter consciência do que é certo e o que é errado e, mais que isso, deve agir de maneira a concretizar apenas o correto; no entanto, para ter seus nobres objetivos atingidos, às vezes ele deverá "sujar suas mãos".

Não levem tais afirmações muito ao pé da letra: não afirmo que as pessoas devam sair fazendo o mal para atingir o bem. Dou um exemplo bem simples do que quero dizer com a seguinte situação. Um grupo de homens vê uma garota bonita passando na rua. Todos têm de dizer uns para os outros: "Como ela é gostosa", "Como ela é bonita" ou algo do tipo. Se algum não fizer um comentário deste tipo, muitas vezes será atormentado pelos outros. Então, para evitar aborrecimentos, o indivíduo que não está nem aí para a garota tem de falar "Sim, como ela é gostosa", evitando o aborrecimento. Ou seja, o indivíduo tem em sua consciência a idéia de que não é necessário falar que todas as mulheres são bonitas ou gostosas, mas o faz apenas para se ver livre dos aborrecimentos. Ele mantém suas idéias do "ser", mas age com base no "dever ser".

Para terminar este longo (e, talvez para alguns, confuso post), coloco dois parágrafos do texto do Maquiavel, que explanam o que estou falando.

A um príncipe, portanto, não é essencial possuir todas as qualidades acima mencionadas, mas é bem necessário parecer possuí-las. Antes, ousarei dizer que, possuindo-as e usando-as sempre, elas são danosas, enquanto que, aparentando possuí-las, são úteis; por exemplo: parecer piedoso, fiel, humano, íntegro, religioso, e sê-lo realmente, mas estar com o espírito preparado e disposto de modo que, precisando não sê-lo, possas e saibas tornar-te o contrário, Deve-se compreender que um príncipe, e em particular um príncipe novo, não pode praticar todas aquelas coisas pelas quais os homens são considerados bons, uma vez que, freqüentemente, é obrigado, para manter o Estado, a agir contra a fé, contra a caridade, contra a humanidade, contra a religião. Porém, é preciso que ele tenha um espírito disposto a voltar-se segundo os ventos da sorte e as variações dos fatos o determinem e, como acima se disse, não apartar-se do bem, podendo, mas saber entrar no mal, se necessário.

Um príncipe, portanto, deve ter muito cuidado em não deixar escapar de sua boca nada que não seja repleto das cinco qualidades acima mencionadas, para parecer, ao vê-lo e ouvi-lo, todo piedade, todo fé, todo integridade, todo humanidade, todo religião; e nada existe mais necessário de ser aparentado do que esta última qualidade. É que os homens em geral julgam mais pelos olhos do que pelas mãos, porque a todos cabe ver mas poucos são capazes de sentir. Todos vêem o que tu aparentas, poucos sentem aquilo que tu és; e esses poucos não se atrevem a contrariar a opinião dos muitos que, aliás, estão protegidos pela majestade do Estado; e, nas ações de todos os homens, em especial dos príncipes, onde não existe tribunal a que recorrer, o que importa é o sucesso das mesmas, Procure, pois, um príncipe, vencer e manter o Estado: os meios serão sempre julgados honrosos e por todos louvados, porque o vulgo sempre se deixa levar pelas aparências e pelos resultados, e no mundo não existe senão o vulgo; os poucos não podem existir quando os muitos têm onde se apoiar. Algum príncipe dos tempos atuais, que não convém nomear, não prega senão a paz e fé, mas de uma e outra é ferrenho inimigo; uma e outra, se ele as tivesse praticado, ter-lhe-iam por mais de uma vez tolhido a reputação ou o Estado.

Obviamente, Maquiavel fala sobre o governante e sua relação para com o estado. Platão também, quando faz suas análises, engloba o estado, já que na época em que viveu o estado era tudo. O ideal, creio, é unir as duas visões não apenas no que diz respeito a temas políticos, mas a tudo que acontece em nossas vidas.


O socialismo no século XXI

Como vocês podem ver nos comentários do último post, fui questionado sobre a possibilidade de haver um sistema socialista nos dias de hoje, considerando-se toda a influência que a globalização trouxe e traz para as relações internacionais, sociais, políticas, econômicas e sociais em todos os países. Ou seja, uma pergunta bem "fácil" de ser respondida... :P

A minha resposta para esta pergunta é tão "fácil" quanto a própria pergunta: sim, isto é possível. Basta olharmos para dois países extremamente opostos um ao outro (e que são citados no texto abaixo): a China e a Suécia. Em quase todos os termos, estes países são opostos. Abaixo alguns dados demográficos para compararmos posteriormente.

China:

  • Área: 9.596.960 km quadrados
  • População: 1.313.973.713 (set. 2006)
  • PIB: US$ 10 trilhões
  • Crescimento do PIB: 10.5% (2006)
  • PIB per capita: US$ 7.600
  • População abaixo da linha de pobreza: 10%
  • Reservas cambiais: US$ 1,034 trilhão
  • Governo: comunismo de partido único

Suécia:

  • Área: 449.964 km quadrados
  • População: 9.016.596 (set. 2006)
  • PIB: US$ 285,1 bilhões
  • Crescimento do PIB: 4,2% (2006)
  • PIB per capita: US$ 31.600
  • População abaixo da linha de pobreza: 0%
  • Reservas cambiais: US$ 22,26 bilhões
  • Governo: monarquia constitucional

Apesar de serem extremamente diferentes em questões políticas, econômicas e sociais, como pudemos ver, ambos têm algo em comum: a orientação do estado para o social. De maneiras diferentes, e atingindo públicos diferentes, ambos os países efetivamente fazem um trabalho social que garante um mínimo para a população.

A China trabalha em um sistema politicamente fechado e centralizado, o que lhe dá certas vantagens na hora de pôr em prática suas políticas públicas. Claro que o público não é toda a população chinesa -- considera-se que, dos 1,3 bilhão de habitantes, cerca de "apenas" 300 milhões fazem parte da classe média beneficiada pelas políticas públicas dos últimos 25 anos e que levou ao crescimento incomparável do país no mesmo período. Portanto, em termos absolutos, a China conseguiu, com seu sistema fechado, fazer com que apenas 25% de sua população melhorasse de vida -- mas, como já dito, estes 25% representam 300 milhões de pessoas, o que não é pouca coisa. E conseguiu fazer isto seguindo o chamado "socialismo de mercado", em que -- grosso modo -- os cidadãos têm liberdades na esfera econômica, mas não na esfera política.

Do outro lado temos a Suécia, país que até o século XVII era uma das principais potências militares da Europa. Uma das mais antigas monarquias constitucionais européias, a Suécia chegou onde chegou se baseando em um sistema político aberto e estável associado a uma altíssima carga tributária (por volta de 45%). Graças a isto, a Suécia dispõe hoje de um extensivo programa de bem-estar social, que garante uma ótima qualidade de vida para todos os seus cidadãos.

E o socialismo, onde entra nisso tudo? A associação do socialismo com a China é visível, mas com a Suécia nem tanto. Contudo, é necessário mostrar que as idéias de igualdade, de uma forma ou de outra, são postas em prática na Suécia: ela é considerada como o terceiro país do mundo em igualdade social, ficando atrás apenas da Dinamarca e do Japão. Ou seja, o estado sueco efetivamente garante a igualdade social, que é uma das principais bandeiras do socialismo. A China, por sua vez, ainda não garante a igualdade social para todos, mas é inegável que os esforços do governo chinês têm sido no sentido de melhorar a qualidade de vida da população (afinal, os chineses não são trouxas e sabem que, para poderem crescer, precisam ter uma população com nível razoável de vida).

Acredito que um sistema exclusivamente socialista, nos moldes da ex-URSS, seria um tanto quanto inviável atualmente (vide Cuba e Coréia do Norte). No entanto, os princípios do socialismo podem estar perfeitamente presentes nos dias de hoje, seja de uma maneira autoritária (China) ou de uma maneira democrática (Suécia). O importante, em minha visão, não é tanto o sistema político, mas sim o que o sistema político entrega à população.


1 de abril de 2007

O que os russos acham do socialismo

O Centro Nacional de Estudo da Opinião Pública da Rússia (VTsIOM), realizou este mês, em todo o país, uma pesquisa sobre o que os russos acham da idéia de reedificar o socialismo na nova Rússia. A pesquisa apontou que 46% apóiam a idéia, enquanto 17% acham razoável e 37% não consideraram uma boa saída para o país.

Na pesquisa, divulgada pela agência de notícias RIA-Novosti, a maioria das pessoas afirmou que o sistema socialista tem vantagens se comparado ao capitalista. As principais estão na segurança do sistema social (71% contra 13%), nas possibilidades de receber uma educação digna (63% contra 21%), no caráter acessível e de boa qualidade da assistência médica (60% contra 22%), na igualdade de oportunidades para todos os membros da sociedade (62% contra 17%), na harmonia de relações entre diversos povos e etnias (62% contra 17%), nas garantias de segurança pessoal e ordem pública (54% contra 18%).

Em relação à liberdade de informação e acesso a valores culturais, 40% dos entrevistados afirmaram que o socialismo oferece mais oportunidades que o capitalismo, enquanto 38% discordaram dessa afirmação.

As vantagens do capitalismo sobre o socialismo se manifestaram apenas em duas questões apresentadas pelo VTsIOM. 45% dos entrevistados afirmaram que o interesse das pessoas pelo trabalho é maior no capitalismo, enquanto 38% discordaram. Já 51% das pessoas afirmaram que os artigos produzidos são melhores, enquanto 32% discordaram da tese.

Na opinião de 20% dos entrevistados, o socialismo mais conveniente seria o modelo sueco, ''onde a economia funciona segundo o princípio capitalista e a esfera social, segundo o socialista'', afirma o estudo.

Alguns entrevistados (6%) propuseram aproveitar a experiência chinesa de desenvolvimento da ''economia de mercado'', conservando o papel dirigente do Partido Comunista.

Somente 1% dos entrevistados acreditam que o melhor modelo de socialismo seria o praticado na República Popular Democrática da Coréia, enquanto 12% dos russos prefeririam edificar do início um novo modelo socialista.

Perguntados de como se daria a transição para o socialismo, 56% dos russos responderam que ela só seria possível com uma revolução, enquanto apenas 15% acreditaram que seria possível uma transição pacífica.

A pesquisa foi realizada durante 17 e 18 de março deste ano, com 1.600 pessoas de 153 cidades em 46 regiões da Rússia. A margem de erro não passa de 3,4%.