12 de setembro de 2007

Vitória da democracia (?)

Não, eu não acho que foi uma vitória da democracia.

Se entendermos democracia em seu sentido liberal, em seu sentido legal, sem dúvida que foi: todo o processo seguiu os trâmites legais e, oficialmente, ninguém foi coagido a votar contra ou a favor da cassação. A democracia, sendo entendida aqui como a possibilidade dada a todos os senadores de igualmente votarem no processo, existiu.

Mas todos sabemos que não é esta a democracia que importa: não é o legalismo estéril da lei que fará com que nosso país seja democrático. É por isto que eu tinha uma certa rixa velada com um ex-aluno meu: ele, um devoto da Constituição, achava que a política se resolvia apenas por meio da Constituição. Eu dizia, nas minhas aulas sobre democracia social, que a democracia não existe, e ele vinha com aquela ladainha: "Mas não está escrito na Constituição que o voto de todos é igual?"

Não estou dizendo aqui que a legislação é desnecessária. De forma alguma. Ao contrário, sem legislação não há estado, não há instituições, não há democracia. Não há dúvida de que a legislação é fundamental para toda e qualquer administração. Agora, dizer que o processo de (não-)cassação do Renan foi uma "vitória da democracia" é exagerar no conceito, já que várias críticas poderiam ser feitas ao próprio processo.

Não há dúvidas que quase tudo que acontece no Congresso é um jogo de cartas marcadas, e justamente por isso não é possível dizer que houve "vitória da democracia". Se houvesse vitória da democracia, não teria havido contradição entre a votação no Conselho de Ética, favorável à cassação, e o plenário do Senado, que o absolveu.

Para terminar: se o Renan tivesse sido cassado, teria ele dito que houve uma "vitória da democracia"?


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